Mente vazia, oficina do cinema bizarro!

By 19 de setembro de 2018Colunas

Como muitos sabem, nós da Pandemonium Show, especialmente os colunistas deste site, são pessoas viciadas em terror, gore e bizarrices. E claro, esse tipo de nerdice também não pode ficar pra trás e sem lugar nas nossas colunas. Aproveitando meu momento de folga da masmorra Pandemonium, eu decidi trazer uma breve lista dos meus açoites mentais favoritos, e por que não!?

 

Os filmes aqui citados provavelmente perpassam o caráter de apenas filmes de drama, terror ou breves incômodos. São obras que se baseiam muito na observação crítica, ou então, na diversão escrachada do trash com pitadas ácidas de realidades. Todos devem ser vistos com atenção e dúvida.

 

Gummo (1997)

 

 

 Passando agora para um dos meus filmes favoritos, do que eu poderia colocar numa categoria de ‘’Ultra Violence’’, se formos pensar em características de filmes como Laranja Mecânica, o clássico que angariou o nome, ao Ex-Drummer, que será citado aqui nessa lista.

Gummo é o que posso considerar um compilado de cenas abstratas, criado por Harmony Korine, já conhecido para quem é fã do gênero pelo filme The Kids. Gummo se passa na cidade de Xenia, sem um contexto geral, um roteiro, ou um protagonista.

O cenário em questão é pós apocalíptico, numa visão de niilismo e um horror psicológico, o filme te coloca de frente para uma série de questionamentos que se mesclam com cenas grotescas. Lixo, água poluída, animais mortos, pessoas mentalmente instáveis, Gummo é uma análise de uma comunidade fictícia de ‘’White Trash’’, designação usada para exemplificar pessoas brancas sem estudo, cultura ou dinheiro, desprovidos de qualquer status. Gummo prega diversas peças que parecem estar distantes para nós, desde a idade de seus protagonistas, o que está em jogo, e as condições sociais, mas que se observada de forma abstrata, o filme pode nos trazer fracções mais realistas do que se imagina. Em contextos de estupro, homofobia, doenças, torturas, violência gratuita, abuso sexual e uso de drogas.

Parecendo um parque de diversões freak, o filme demonstra o que pode vir a preencher o vazio da situação fictícia em que lhe é colocada, e que claramente como dito acima, pode ser transportado para uma análise do mundo real, dentro de um contexto ‘’Hiper Realista’’, ou seja, da análise de interações fictícias, com a realidade, em um mix distanciado do que é real ou ficção. Sendo assim um grande paradigma da realidade americana por exemplo, do consumismo ou da desolação, deslocando valores semióticos que podem criar uma condição do Hiper Real. Além do mais, o filme conta com a playlist de bandas da qual me agradam em particular, como: Bathory, Brujeria, Spazz, Eyehategod e banda brasileira de Black Metal, Mystifier. Adquirindo assim um tom sonoro agressivo e melancólico, que unido da apreensão que o visual do filme passa faz com que Gummo seja uma obra muito particular.

‘’ Life is beautiful. Really, it is. Full of beauty and illusions. Life is great. Without it, you’d be dead.’’ – Solomon (Gummo)

 

 

Ex Drummer (2007)

Ex Drummer é um filme belga, feito por Koen Mortier, baseado no livre de mesmo nome do autor Herman Brusselmans.

O filme por si é uma anomalia que deixa um gosto amargo na boca, o roteiro se dá por uma premissa simples. Alguns desajustados decidem montar uma banda, e eles convidam um escritor de alto padrão chamado Dries, convidado por três deficientes para entrar em sua banda após os três terem visto uma entrevista sua falando que tocavam bateria, o que tem demais nisso? É agora que entramos nos detalhes dessa produção. Os integrantes, começando por Koen, um estuprador violento, homem sádico, agressivo e com a língua presa, que tem por hobby agredir mulheres como ‘’diversão’’. Jan, um baixista homossexual que tem um problema em seu braço, que foi causado por um trauma, logo após sua mãe ter lhe encontrado se masturbando como era novo. Ian o guitarrista, além de surdo mora com sua esposa junkie no meio de um monte de lixo, junto de sua filha. A banda enfatiza o fato de que todos tem uma deficiência e levam isso a carga, Dries se aproveita da situação desse universo caótico entre três fodidos que vem da parte baixa da cidade, que não trabalha e se sustentam com assistência social para poder escrever sobre.

A banda ‘’The Feminists’’, assim nomeada por Dries, por dizer que quatro deficientes valem tanto quanto quatro feministas. A deficiência de Dries, no caso, é não saber tocar bateria. O foco do ‘’Feminists’’ é ensaiar para participar de um festival, aonde logo após o baterista se retira da banda para dar continuidade a seus escritos.

 Mas o que esse filme tem além de uma banda com nome que foi dado a partir de uma ideia tosca e misógina?

Ex Drummer gira em torno de obsessões como álcool, drogas, a violência sincera, explorando o máximo possível da miséria humana. O mundo como uma casca assustadora, suja, chocante e desprovida de cuidados, aonde suas diversas estratificações o tornam cada vez mais intenso. O filme é extremamente cômico, e muitas vezes sem sentido aparente, as cenas são hilariantes e tensas. Como por exemplo: As cenas dentro da casa de Koen, são invertidas, mostrando assim toda a insanidade do personagem. O personagem é altamente violento e tenta justificar todos os seus atos compulsivos por violência e sexo contra as mulheres. Jan tem problemas com seus pais, o pai é veterano de guerra, tendo de passar o dia inteiro amarrado a uma cama, e sendo limpado por seu filho, Jan passa o dia contando suas experiências sexuais e chamando seu pai de loser, sua mãe é careca, devido ao trauma de ter visto seu filho se masturbando e passa o dia procurando por homens. Ivan apesar de ser o mais normal, vive num estado intenso de caos, as cenas em sua casa são perturbadoras, desde a sujeira, e sua filha pequena exposta a constante violência dele com sua esposa viciada.

Com diversas críticas, Ex Drummer assim como Gummo, trata de diversos assuntos: Valores morais, a estratificação social e uma janela aberta de como o mundo pode ser violento e sem sal. A falta da instrução, da barreira do que é certo ou errado socialmente, da violência desenfreada mesclados de edição, efeitos de rewind, posições de câmera, luz, playlist e edição impecável.

 

A Bruxa (2016) – Contém Spoilers – Análise

O filme produzido por Robert Eggers veio para causar um estrondo no mundo cinematográfico e acalentar o coração de historiadores comprometidos com o gosto pelo ocultismo, assim como eu.

A trama se passa no século XVII, na Nova Inglaterra, colonização dos Estados Unidos. Nos trazendo como personagens uma família puritana que foi excomungada por heresia e teve de se retirar do vilarejo, indo viver na floresta. Após o filho mais novo ser levado, a família começa a passar por diversos tormentos que seriam advindos do Diabo para provocar a família em sua temeridade a Deus, causando assim diversos infortúnios. Mas vamos analisando com calma, afinal, sua sinopse pode ser colocada de forma bem simples, mas o filme não é. A analogia primária a ser feita é o caráter protetor que pode ser visto na questão religiosa da cidade, estar na floresta é estar a mercê das provações, do pecado, e fora dos muros da cidade, o braço religioso do vilarejo não estará mais intercedendo por você. O que logo nos coloca com a com a paranoia e culpabilidade da moral religiosa da época em choque: Colheita fraca? Estamos sendo punidos por Deus. O sumiço do filho? Deus lhe retirou de nós por algum motivo, isso claro, é o gatilho primordial para intensificar a relação da família e o egoísmo de cada personagem em favor da sua crença religiosa, neste caso, do pai e da mãe. Afinal, as crianças estando em tempo de descoberta com a idade, são pecadores ‘’naturais’’.

O filme segue numa análise de símbolos que são colocados de maneira bem suave, e serão expostos aqui os que nós sabemos (o que pode ter guiado muitas pessoas a não compreenderem diversas cenas). Começando pelo fato de que um filme com o nome de ‘’A Bruxa’’ pode naturalmente nos remeter ‘’Jump Scares’’ e coisas do tipo, porém, a alçada do filme é ser um Drama Religioso e não um filme de terror, trazendo como vilão desta narrativa, o Deus cristão. A demonstração fora da vila, como já citamos acima, demonstra uma passada no ideário da ‘’idade das trevas’’ uma situação remota do feudalismo, o homem busca sua liberdade em sua terra, sua honra material e mortal, mas ao mesmo tempo sua escravidão e servidão eterna. A progressão religiosa cristã que se passa do ideário medieval, que ainda se mostra bem representado apesar do filme se passar no século XVII, mostra que a idade de salvação não era bela, e que a continuação em terra era no mínimo sufocante, agressiva e amedrontadora. A paranoia dos personagens é angustiante e notável. A simbologia do filme é muito pontuada, como por exemplo, temos uma mescla de características dos contos de fada, afinal, o filme lida com relatos, e os contos de fada também nada mais são do que relatos com críticas e acidez do mundo real, mascarando assim o contexto direto. Como Lewis Carrol, com o aparecimento do Coelho, Alice no país das maravilhas pode nos trazer a curiosidade, e as crianças estão sempre linkadas na floresta. Chapeuzinho vermelho de os Irmãos Grimm, aonde o contato de Caleb com a bruxa na floresta, trazendo transgressão, sexualidade, remetendo assim também ao pecado original exposto na bíblia, podendo trazer uma alusão em Adão e Eva, e a constante citação da maçã.

Muitos historiadores que já fizeram colunas sobre o filme, alegam uma posição interessantíssima sobre a possível relação com o ‘’Catarismo’’, a sociedade dos Cátaros, um movimento cristão na Europa Ocidental, sendo considerado por Roma uma ameaça ao Cristianismo Ortodoxo. Mesclando com o politeísmo, acreditavam na coexistência de dois deuses, um bom e outro maléfico, o reino espiritual e bom do Deus do Novo Testamento, e o reino físico e negativo do Antigo Testamento, na figura que pode ser o Diabo. A matéria e o corpo eram criados pelo Diabo, prontos para o pecado. Opondo ao conceito da igreja católica monoteísta, aonde Deus teria criado todas as coisas. Os Cátaros também acreditavam que as almas eram de anjos assexuados aprisionados pelo Diabo em corpos humanos e amaldiçoados assim a reencarnarem até atingirem a maturidade espiritual. A relação com os cátaros, era de chamar a igreja monoteísta de ‘’Toca de lobos’’, a família prefere mentir para si que um lobo levou a criança. Mas junto do acréscimo do lobo, vem o questionamento dos motivos de Deus para ter retirado a criança, levando assim a culpabilidade de seu criador. Muitos também apontam a inversão do valor do conto de Chapeuzinho Vermelho, aonde Caleb seria o lado frágil, a menina do conto. E a bruxa articularia como o lobo, ou que talvez o lobo seja uma analogia a relação incestuosa entre o garoto e sua irmã. O filme trata claramente de um desabrochar sexual, voltando para a questão do desprendimento que vai ser ligada ao Diabo.

Mas o que para Idade das trevas, era basicamente uma conversão de católicos a uma espécie de extremismo pagão, o renascentismo trás o homem como centro do universo, levando assim a questão do Diabo ao desprendimento, a liberdade carnal, física e material do homem. Perpassando também a questão do Deus do Antigo Testamento. O adoecimento da família mediante da desgraça coloca diversos conflitos da possessão, a falta de fé, o pai se mantendo firme, os filhos caindo na tentação e a esposa perdendo a fé. Esquizofrenia, histeria, depressão e outras questões psicológicas que podem ser colocadas de maneira mais ”fria”.

E assim se fortifica a culpabilidade da ‘’bruxa’’, Thomasin passa a ser atacada e culpada de ser a bruxa pela própria família. A mãe questiona o marido em diversos momentos sobre o amadurecimento, sugerindo até se ‘’livrar’’ da menina colocando-a nas mãos do outra família. A Bruxa no fator inquisitório, nada mais é do que uma mulher que lida com o lado de produção manual muitas vezes ligado as ervas medicinais, e a rejeição do modelo patriarcal da igreja. A menina apesar de seguir tudo o que a família pede, é a única presente que quebra com o rito da ignorância e de seus desejos, como hesitar ao sair da igreja após o julgamento, o conceito da proteção que deve ser provida pelo pai, mas que não consegue caçar nada e como caçador é um ótimo lenhador, acabando ironicamente morto pela pilha de lenhas no final. O desejo do garoto pela irmã que é recusado pelo seu fator religioso e aceito pelo desprendimento da mesma, causando a culpabilidade em si por ser mulher, a fuga de Caleb para a floresta com a irmã e o encontro com a bruxa de capuz vermelho que pode ser o encontro com sua limitação, e o surto religioso do garoto pela salvação após ter contato com o pecado. A mãe que critica a filha, pode ser colocada no parâmetro de uma pessoa desiludida com a vida, forçada a viver em tal condição e que inveja a liberdade da filha, culpando-a assim para se libertar de sua angústia. E no final, após Thomasin se libertar, o que pode ser caracterizado por retirar o vestido cheio de sangue de sua mãe, ela vai de encontro com Black Phillip a floresta, e pede-lhe para ver o mundo, aonde o mesmo pedindo para que ela assine o contrato, a menina afirma não saber escrever e o bode diz: ‘’Eu irei guiar sua mão’’. Trazendo uma alusão ao conhecimento, a liberdade, se desprender da ignorância.

Um filme como A Bruxa quebra os padrões convencionais, e brinca com a ‘’ignorância’’ da própria crítica ao filme, trazer uma inversão de papéis de forma tão sutil, não é algo que estamos preparados para sacar assistindo apenas uma vez. Afinal, trás muitas referências e não deve ser assistido como meramente terror, o que é complicado até mesmo pelo marketing que se atribui a estes filmes nestas terras tupiniquins. A produção ainda nos trás questionamentos sobre a própria posição religiosa no mundo atual e o que é a liberdade, claro que nenhum de nós nesta coluna e neste site está tentando te induzir ou criticar quaisquer que seja o fator religioso do leitor desta coluna, estamos apenas fazendo nosso trabalho de interlocutor. O filme definitivamente é para um público muito específico e vai desagradar muitas pessoas, inclusive eu mesmo desaconselho assistir no cinema, pois a experiência pode ser cansativa, como foi para mim no lançamento, mesmo tendo gostado do filme, podendo ser considerado uma experiência ‘’hypada demais’’.

A expectativa que podemos te dar é de um filme hostil, tão lento quanto cinema francês ou obesos de muleta, mas que é recheado de uma boa história!

 

Especial mongol nostálgico:

 

Gremlins (1984):

Steven Spielberg vem cagando na cabeça de muita gente desde que começou no cinema, e claro, vem abrindo um leque cinematográfico atípico se comparado ao de outro diretor. Contando com filmes como: ET, Jurassic Park, Tubarão, Indiana Jones, Prenda-me se for capaz e etc, aparece como produtor nesta obra do diretor Joe Dante, que é conhecido por clássicos como Small Soldiers e Piranha! Neste roteiro de Chris Columbus (Que é roteirista do Goonies, outro filme trabalhado com Spielberg). Pra quem nunca teve o prazer ou desprazer de assistir Gremlins já dá pra ter uma noção, mas indo ao filme:

 

Um inventor chamado Rand Peltzer está rodando a cidade atrás de um presente para o seu filho Billy, até dar de cara com a loja do Sr.Wing, um chinês dono de um antiquário. Aonde sem saber compra um bixinho de nome ‘’Mogwai’’ (Momento palestra: Mogwai ou 魔怪,significa ‘’Demônio’’ em Cantonês, criando o caos na vida dos seres humanos e se procriando nos tempos de chuva), o velho Wing cuidava da criatura, e não queria passar a bomba do ser maléfico pra ninguém, até que seu neto cuzão o vende por R$200 dólares e passa as seguintes regras pra Rand: ‘’Não expor a luz forte ou ele morre // Não molhar // Não alimentar depois da meia noite sob qualquer hipótese’’. Só que como nada nessa vida é fácil, um pirralho chamado Pete, amigo de Billy, acidentalmente derruba água no Mogwai no quarto de Billy. A criatura bizarra começa a se contorcer e expelir bolar peludas das costas, que em seguida mostram serem cinco novos bixos. Porém em breve, o filho da desgraça acaba por alimentar os Mogwais, que se transformam nas degeneradas e endiabradas criaturas conhecidas como Gremlins. As ratazanas verdes e grudentas do Satanás, acabam se multiplicando em uma piscina, dando inícios ao caos inexplicável de mortes que mais parecem traps do ‘’Esqueceram de mim’’, porém, vale a pena assistir um dos clássicos toscos da história do ‘’Horror Comedy’’.

 

Gremlins é aquela comédia pastel com pitadas de humor negro para se assistir no final de semana, com um certo saudosismo ou descaso, afinal, o final é bem batido, mas não deixa de ser divertido.

A caravana se diverte, e as coisas vão piorando, Gremlins claramente é o alívio cômico dessa coluna que vai fazer com que eu receba meu sanduíche de pagamento, a partir de agora as coisas se diferenciam, afinal, achou ruim!? escreve a coluna! meu sanduíche não tem direito a reembolso!

Aquiles Barbosa

Author Aquiles Barbosa

Historiador, alcoólatra e fanfarrão. Escrevi umas colunas e fui sequestrado por nerds que me obrigam a comer fast food e produzir conteúdo. (Ajude-me Obi-Wan Kenobi!)

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